*Eis aqui este sambinha feito numa nota só*
*Outras notas vão entrar mas a base é uma só*
*Esta outra é conseqüência do que acabo de dizer*
*Como eu sou a conseqüência inevitável de você*
*Quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada*
*Ou quase nada*
*Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada*
*Não deu em nada*
*E voltei pra minha nota como eu volto pra você*
*Vou contar com a minha nota como eu gosto de você*
*E quem quer todas as notas: Ré, mi, fá, Sol, lá, si, dó*
*Fica sempre sem nenhuma, fique numa nota só*
*E quem quer todas as notas: Ré, mi, fá, Sol, lá, si, dó*
*Fica sempre sem nenhuma, fique numa nota só*
*João Gilberto*
VEJA VÍDEO:
**209. SAMBA DE UMA NOTA SÓ - VÍDEO NOVO**
https://www.youtube.com/watch?v=s6tI_nb0mxM
EM UMA VERSAO MODERNA
*"Samba de uma Nota Só", composta por Tom Jobim e Newton Mendonça, lançada por João Gilberto em 1960, é um clássico da Bossa Nova. A música utiliza uma única nota na melodia para metaforizar a simplicidade, constância e a essência da comunicação amorosa, contrastando com harmonias complexas.*
*“Samba de uma nota só”. Neste mês completam-se 65 anos de seu lançamento fonográfico, num 78 rpm de João Gilberto que chegou às lojas em abril de 1960. Na época, a composição de Tom Jobim e Newton Mendonça era mais uma boa novidade entre o frescor inaugural de “Chega de saudade” (1958) e o sucesso planetário da “Garota de Ipanema” (1962), ambas compostas também por Tom – mas em parceria com Vinicius de Moraes – e marcos inquestionáveis da bossa nova.*
*Nenhuma dessas duas, no entanto, extrapolou a música a ponto de virar uma expressão popular, dessas que vão parar na boca do povo, nas páginas de jornal e até na poesia. Como Carlos Drummond de Andrade, que, em sua coluna no Jornal do Brasil (22-09-1973), saudou a primavera com um poema de amor em que dizia, lá pelo fim, que “a chuva – plic – tamborina / seu samba de uma nota só / na área de serviço...”*
*Pouco depois era a vez do atacante Dé Aranha, do Vasco da Gama, dizer ao Jornal dos Sports (12-06-1976), que ele não era samba de uma nota só, mas seu “forte é aquela arrancada pela esquerda”. E o senador Jarbas Passarinho, que acusou a oposição de estar “executando um samba de uma nota só” ao criticar insistentemente o governo pelo aumento do preço de gasolina, como se viu no Jornal do Commercio (03-10-1980).*
*Já na Revista do Rádio (28-10-1961), samba de uma nota só era como a cantora Ademilde Fonseca chamava seu penteado da época, segundo a coluna Mexericos da Candinha. E até num texto sobre música ele apareceu sem versos ou melodia, numa matéria da revista Manchete (31-01-1987) sobre Tom Jobim: “Sua obra mais recente tem sido assim um verdadeiro samba de uma nota só, um grito de alerta contra a destruição ecológica que o Brasil vem sofrendo.”*
*Seja como for, a expressão de uso corrente (com significado variando entre a repetição e a monotonia) já é, por si só, uma evidência do sucesso do “Samba de uma nota só”. Afinal, ela só pegou de fato – muito além dos apartamentos e boates miúdas de Copacabana, como já vimos – pois a composição de Tom Jobim e Newton Mendonça era bem conhecida por uma parte considerável da população. Nada mal para um samba nascido sem grandes pretensões e justamente num apartamento, o de Newton, na Rua Prudente de Moraes, em Ipanema.*
*No livro “Chega de saudade: a história e as histórias da bossa nova”, Ruy Castro conta que um dos primeiros a ouvi-lo foi o cantor Tito Madi, numa noite de 1959, no Beco das Garrafas. Newton arrastou-o para dentro da boate MaGriffe e lhe mostrou o samba no piano-armário da casa. Segundo o biógrafo da bossa nova, Tito “ficou quase estatelado” ao ouvir a composição inacabada – ainda sem letra – feita há pouco com Tom Jobim, os dois se alternando entre as teclas do piano e as anotações que faziam em um papel.*
*Só depois fizeram os versos: uma letra espirituosa, feita também a quatro mãos, com dois diálogos entrelaçados. Um deles interno, no campo meta-discursivo: a conversa da letra com a melodia, da “nota só” que modula para outra nota, depois volta para a anterior, etc. Pois em pleno sobe-e-desce entre notas vem o outro diálogo; na verdade uma cantada em alguém que, de tanto jogo-duro, faz o eu-lírico mudar de estratégia: fazer a cantada em “uma nota”, afinal já se utilizou “de toda a escala e no final não deu em nada ou quase nada”.*
*Segundo Ruy Castro, Tom e Newton ainda encontraram um jeito de, logo no primeiro verso, fazer uma pequena provocação a Ary Barroso, o grande compositor que, nos programas de calouros que comandava no rádio, não admitia que os candidatos chamassem samba de sambinha.*
*Eis aqui este sambinha*
*Feito numa nota só*
*Outras notas vão entrar*
*Mas a base é uma só...*

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